Quando uma ideia atravessa fronteiras

Na Corrente Báltica, dois milhões de pessoas transformaram um gesto simples em protesto impossível de ignorar. 


Há uma pedra diferente encaixada numa calçada em Vilnius, na Lituânia. Encontrei por acaso. No miolo dela, letras cravadas em círculo formam a palavra Stebuklas. Foi ali que uma das imagens mais fortes do fim do domínio soviético começou a se desenhar. 

Naquele ponto, certo dia, alguém deu a mão para alguém, que deu a mão para outro alguém, que deu a mão para outro e… dentro de algumas horas, o gesto atravessava três países!

A mobilização para formar essa “corrente humana” vinha sendo combinada havia semanas, em conversas discretas e redes de confiança. 

Quando o sol nasceu, os primeiros “elos” já estavam encaixados enquanto uma menina de 12 anos, na Letônia, acordava ansiosa: se conseguissem ao menos tocar as pontas dos dedos, pensava ela, já seria alguma coisa. 

Para ela, se ao menos conseguissem tocar as pontas dos dedos, já seria alguma coisa.

Foi o que aconteceu.

Em algum ponto da estrada, a menina e um estranho esticaram bem os braços e encostaram os dedos médios.

Era 23 de agosto de 1989 quando 2 milhões de cidadãos das repúblicas soviéticas da Lituânia, Letônia e Estônia conseguiram dar as mãos como se fossem aqueles recortes de bonecos de papel, só que com gente de verdade e 650 quilômetros de extensão. 

Era um protesto pacífico clamando por independência. 

O temor da menina letã foi só tolice. As pessoas iam aparecendo, se encaixando e a corrente se esticava, esticava, esticava. Cruzava cidades, invadia estradas, atravessava as fronteiras. A ordem era buscar um espaço vazio e fechá-lo. 

Se os elos rareavam, logo apareciam novas “peças”. Vinham de carro ou trazidas por motoristas de ônibus, que as levavam até onde precisassem. 

Não havia certeza alguma de que o planeta testemunharia o feito. Aquele ainda era um mundo fechado. 

Eu não conheci os detalhes dessa história até que a ouvisse diretamente dos amigos que ganhei ao viajar pelos países bálticos muitos anos depois, já adulta.

A corrente reuniu 3 povos de idiomas e origens diferentes. 

Nem se sabe se todos ali pensavam igual. 

Porque pessoas são únicas e divergem em muitas coisas. Tudo o que maioria delas inicialmente podia fazer era ficar em casa ouvindo o rádio, acompanhando o movimento de longe. Até que, tomadas por uma convicção inabalável de que ali havia uma causa em comum, muitas foram se levantando pouco a pouco ao longo do dia e se juntando à corrente.

Há relatos  de que em algumas cidades as pessoas simplesmente se dirigiam à estação central de ônibus e achavam um jeito de tomar um transporte público que as colocasse o mais perto possível de um ponto qualquer da corrente. 

Cada um de alguma forma, ia até um ponto da corrente, encontrava seu lugar e dava as mãos. A corrente aumentava.

Conta-se que, inicialmente, todos cantaram em voz baixa, até que ganharam força para proclamar um refrão que era mais ou menos assim: “Irmão, irmã, juntos ficamos de mãos dadas pela liberdade! Os países bálticos estão despertando”.

Dois anos mais tarde celebrariam a independência. 

Ah! Stebuklas significa milagre.

Užupis, a república imaginária no coração de Vilnius

Depois da queda da URSS, um grupo de artistas criou uma república de brincadeira — e levou muito a sério direito de cada um ser quem é.

Se abríssemos o mapa de um país sobre a mesa como quem abre um jogo de tabuleiro, a Constituição seria o livrinho de regras da brincadeira. Ali estariam os limites, os direitos, as promessas de justiça e aquela tentativa — quase sempre imperfeita — de garantir que todo mundo tenha algum espaço para existir. 

Na vida real, nem sempre uma Constituição contempla ou agrada a todos. Há pensamentos que divergem, interesses que se chocam, feridas que não cabem em artigo nenhum. Talvez por isso seja tão curioso que, no fim do século 20, mais precisamente em 1º de abril de 1997, uma pequena comunidade de artistas e intelectuais tenha criado sua própria nação, proclamado independência e escrito uma Constituição feita de valores aparentemente simples, mas capazes de tocar pontos fundos da existência humana.

Não sei se o Dia da Mentira foi escolhido de propósito. Mas a autoproclamada República de Užupis nasceu assim mesmo: dentro de Vilnius, capital da Lituânia, uma ex-república soviética às margens do Mar Báltico. 

Depois de décadas sob o jugo da URSS, gente que havia aprendido a esconder pensamento, criação e desejo de liberdade escolheu um bairro separado do centro de Vilnius por um rio e deu início ali a uma espécie de recomeço. A área não tinha lá a melhor das vibrações. Além de habitada por um ou outro membro da KGB, a polícia secreta da União Soviética, era cheia de casas abandonadas e semidestruídas, ocupadas por gente que não tinha para onde ir — ou que havia perdido o rumo num mundo onde o respeito às liberdades individuais, fazia tempo, tinha deixado de ser um valor.

O que uma república inventada precisa ter 

E como toda república tem seu grupo de governantes, Užupis elegeu os seus: presidente, ministros, embaixadores… todos gente criativa envolvida com a reconstrução do bairro e criação de galerias, ateliês, cafés, arte de rua, lojas e festividades. 

E como toda nação tem seus monumentos, eles ocuparam pilares vazios — de onde Lênins e Stalins haviam sido desalojados — com suas próprias esculturas. A principal delas é um anjo soprando uma trombeta, como quem anuncia o renascimento e a liberdade artística.

E como toda república independente deve ter uma bandeira, Užupis tem a sua. Nela, aparece uma mão em posição autoritária, mas com um buraco no meio: sim, você é livre para passar. Ninguém será impedido de fazer seu caminho. 

A placa de entrada avisa que o sorriso é bem-vindo e que o limite de velocidade é de 20 km/h. É uma velocidade boa para passear, espreitar, explorar, conhecer pessoas e escolher o próprio rumo.

 

 

Finalmente, como toda nação livre precisa de uma Constituição — ou pelo menos de uma boa tentativa de organizar seus sonhos — Užupis criou a sua. Estive lá e li seus 38 artigos, presos ao muro da rua principal.  Eles aparecem em placas espelhadas, como se a Constituição não pudesse ser lida sem que o leitor se veja refletido nela. Ao lado, três lemas:

NÃO SE ANULEM 

NÃO SE VINGUEM

NÃO SE RENDAM

A Constituição de Užupis

Sem perder o humor, a delicadeza e uma estranha lucidez sobre os grandes anseios da vida…a Constituição de Užupis “assim dispõe”:

1. Homens e Mulheres têm o direito de viver e passar às margens do rio Vilnia, e o rio Vilnia tem o direito de passar.

2. Homens e Mulheres têm direito a água quente, a aquecimento no inverno e a um telhado.

3. Homens e Mulheres têm o direito de morrer, não sendo no entanto uma obrigação.

4. Homens e Mulheres têm o direito de cometer erros.

5. Homens e Mulheres têm o direito de ser únicos.

6. Homens e Mulheres têm o direito de amar.

7. Homens e Mulheres têm o direito de não ser amados, mas não necessariamente.

8. Homens e Mulheres têm o direito de ser medíocres e desconhecidos.

9. Homens e Mulheres têm o direito de caminhar lentamente.

10. Homens e Mulheres têm o direito de amar e cuidar de um gato.

11. Homens e Mulheres têm o direito de cuidar de um cão até que um deles morra.

12. Um cão tem o direito de ser um cão.

13. Um gato não é obrigado a amar o seu dono, mas deve ajudá-lo em tempos de necessidade.

14. Algumas vezes, Homens e Mulheres, têm o direito de não ter consciência de seus deveres.

15. Homens e Mulheres têm o direito de estar em dúvida, mas isso não é uma obrigação.

16. Homens e Mulheres têm o direito de serem felizes.

17. Homens e Mulheres têm o direito de serem infelizes.

18. Homens e Mulheres têm o direito de ficar em silêncio.

19. Homens e Mulheres têm o direito de ter fé.

20. Ninguém tem o direito à violência.

21. Homens e Mulheres têm o direito de apreciar a sua insignificância.

22. Ninguém tem o direito de ter desígnios sobre a eternidade.

23. Homens e Mulheres têm o direito de compreender tudo.

24. Homens e Mulheres têm o direito de não compreender nada.

25. Homens e Mulheres têm o direito de ter qualquer nacionalidade.

26. Homens e Mulheres têm o direito de celebrar ou não celebrar o seu aniversário.

27. Homens e Mulheres devem lembrar-se do seu nome.

28. Homens e Mulheres podem partilhar o que possuem.

29. Ninguém pode partilhar o que não possui.

30. Homens e Mulheres têm o direito de ter irmãos, irmãs e pais.

31. Homens e Mulheres podem ser independentes.

32. Cada um é responsável pela sua liberdade.

33. Homens e Mulheres têm o direito de chorar.

34. Homens e Mulheres têm o direito de ser mal interpretados.

35. Ninguém tem o direito de culpar outra pessoa.

36. Homens e Mulheres têm o direito de ser um indivíduo.

37. Homens e Mulheres têm o direito de não ter direitos.

38. Homens e Mulheres têm o direito de não ter medo.

Em tempo, Užupis significa “do outro lado do rio”.

Nota de origem: este texto foi publicado originalmente na revista Vida Simples. Em julho de 2026, foi republicado no Viagens Transformadoras para integrar a seção Lituânia, reunindo meus relatos, memórias e experiências no país.