Nota de atualização: este relato foi publicado originalmente na revista Top View e neste site. Em julho de 2026, foi revisto para integrar a seção Lituânia do Viagens Transformadoras, com uma breve contextualização sobre a antiga base subterrânea de mísseis soviéticos hoje transformada em museu.
A primeira, das muitas vezes, que visitei esta antiga base, a Lituânia ainda não fazia parte da União Europeia. O lugar tinha uma estrutura de visitação bastante rudimentar, quase improvisada. Talvez por isso a sensação tenha ficado tão viva: como se uma parte do passado tivesse sido deixada ali às pressas, embaixo da terra, depois da retirada soviética e da independência do país. Anos depois, o espaço se tornou mais organizado para receber visitantes. Mesmo assim, continua carregando a força inquietante de um lugar onde a história não parece totalmente encerrada.
Se alguém me dissesse que eu estava no meio do cenário de um filme de magos e fadas, eu acreditaria. O interior da Lituânia é isso mesmo: um tapete verde, uma paisagem misteriosa pontilhada por vilarejos, lagos e florestas de coníferas.
O silêncio dessas terras sempre pareceu intacto. Nem mesmo certos movimentos sinistros que aconteceram neste subterrâneo por décadas conseguiram quebrá-lo por completo.

Por volta de 1960, na corrida para equilibrar sua força militar com a dos americanos, a União Soviética, que dominava a Lituânia, encontrou bem no meio do país — ou, mais precisamente, embaixo dele — o espaço ideal para uma instalação secreta.
A área onde hoje fica o Parque Nacional Žemaitija — feita de 200 km² de natureza e magia — acolheria, então, mísseis nucleares apontados (e bem guardados embaixo da terra) para países ocidentais.
Com o colapso da URSS, o 79º Regimento foi deixado para trás e ficou às moscas enquanto a Lituânia se reerguia como nação independente e devolvia os arredores à população, agora como Parque Nacional Žemaitija.
A base subterrânea dos mísseis começou a ser construída assim que as famílias que viviam ali, convidadas a partir, deixaram a região. Depois disso, grande parte da floresta foi isolada.
Os soldados escavaram o chão e dentro dele fizeram os silos para os mísseis, estações de rádio, salas de controle e depósitos de ogivas e munição de guerra. Tudo impermeabilizado e coberto com terra para que ninguém percebesse que dali poderia ser acionada a temida guerra nuclear entre as potências capitalista e comunista — eram tempos de muita espionagem militar.
Arame farpado, alarmes e fios elétricos de alta voltagem isolavam o perímetro daquele enorme mundo de coníferas.
Os militares do então 79º Regimento passaram a viver numa aldeia próxima da base, Plungė — hoje uma cidade usada como ponto de partida para quem visita o majestoso lago Plateliai e o Parque Nacional Žemaitija.
Alguns desses militares chegaram a participar até da implantação de mísseis em Cuba. Conta-se que, metidos em trajes civis para evitar suspeitas, acompanharam mísseis transportados dali da região por trem até um porto, de onde seguiriam de navio para Cuba. Foi numa noite de 1962 em que a base operou com as luzes apagadas, de tão secreta que era a missão.
Em setembro de 1962, mísseis foram transportados dali por trem até chegar a um navio para Cuba na calada de uma noite em que a base operou com as luzes apagadas e soldados em trajes civis para evitar suspeitas de movimento.
A BASE DEBAIXO DA FLORESTA
Todo esse cenário campestre do parque nacional dissimula a presença de uma antiga base militar na região. Na estrada, é preciso ficar atenta às palavras Šaltojo karo, que em lituano indicam o caminho para lá.
Depois de encontrar a cerca de arame farpado que delimita o lugar, aparecem quatro estruturas de concreto em forma de conchas gigantes brotando do solo. São as pontas dos quatro silos subterrâneos que armazenavam os mísseis e denunciam a área de lançamento.

O mítico botão vermelho que desencadearia uma guerra nuclear existiu.
Uma discreta porta no chão leva ao bunker que abrigou a base militar.
É hora de entrar numa teia de corredores estendida andares abaixo, protegida por chumbo e concreto suficientes para suportar uma explosão nuclear. Em cada sala, documentos, fotos e vídeos até então confidenciais, parafernália militar, componentes dos mísseis e propaganda soviética reconstituem o cotidiano da base.
Aos poucos, o lugar vai revelando o quanto o mundo chegou perto de uma guerra nuclear.

Máscaras de proteção e folhetos com instruções de salvamento, primeiros socorros e procedimentos de evacuação criados pela URSS para proteger os cidadãos em caso de guerra estão lá. Tudo original.
Depois de atravessar corredores, salas secretas, portas de ferro e escadinhas íngremes, o melhor ainda está por vir: por uma portinhola, chega-se à borda de um precipício de trinta metros de profundidade.
É um dos silos que armazenou os mísseis por 20 anos, à espera da hora do acionamento. O teto ao alcance das mãos é o lado de dentro das conchas vistas lá fora.


O gabinete do comandante da base, autorizado a acionar o famoso “botão nuclear”, também está reconstituído. Brincadeira ou não, a ideia é fazer parecer que, sim, o mítico botão vermelho capaz de desencadear uma guerra nuclear existiu.
Atrás de um vidro de segurança, o botão acionaria uma guerra a partir da Lituânia. Foi por pouco.
Com o colapso da URSS, o 79º Regimento foi deixado para trás e ficou às moscas enquanto a Lituânia se reerguia como nação independente e devolvia os arredores à população, agora como Parque Nacional Žemaitija.
Quando o país entrou para a União Europeia, as instalações da base foram limpas e organizadas para receber visitantes.
Como chegar
Da cidade portuária de Klaipeda para o Parque Nacional Žemaitija/Museu da Guerra Fria: são 85 km de carro. Uma boa ideia é contratar a empresa de Jurga e Martynas (+370 46 211879). O casal, dono de um albergue e de apartamentos para alugar na cidade, faz tours guiados em inglês, lituano e alemão atendendo tanto a hóspedes quanto a passageiros dos cruzeiros que chegam na cidade.
*Atente-se para as placas na estrada: Šaltojo karo ekspozicija (Museu da Guerra Fria ou Cold War Museum) e Žemaitijos nacionalinis parkas (Parque Nacional Žemaitija).


