Na Corrente Báltica, dois milhões de pessoas transformaram um gesto simples em protesto impossível de ignorar.
Há uma pedra diferente encaixada numa calçada em Vilnius, na Lituânia. Encontrei por acaso. No miolo dela, letras cravadas em círculo formam a palavra Stebuklas. Foi ali que uma das imagens mais fortes do fim do domínio soviético começou a se desenhar.
Naquele ponto, certo dia, alguém deu a mão para alguém, que deu a mão para outro alguém, que deu a mão para outro e… dentro de algumas horas, o gesto atravessava três países!
A mobilização para formar essa “corrente humana” vinha sendo combinada havia semanas, em conversas discretas e redes de confiança.
Quando o sol nasceu, os primeiros “elos” já estavam encaixados enquanto uma menina de 12 anos, na Letônia, acordava ansiosa: se conseguissem ao menos tocar as pontas dos dedos, pensava ela, já seria alguma coisa.
Para ela, se ao menos conseguissem tocar as pontas dos dedos, já seria alguma coisa.
Foi o que aconteceu.
Em algum ponto da estrada, a menina e um estranho esticaram bem os braços e encostaram os dedos médios.
Era 23 de agosto de 1989 quando 2 milhões de cidadãos das repúblicas soviéticas da Lituânia, Letônia e Estônia conseguiram dar as mãos como se fossem aqueles recortes de bonecos de papel, só que com gente de verdade e 650 quilômetros de extensão.
Era um protesto pacífico clamando por independência.
O temor da menina letã foi só tolice. As pessoas iam aparecendo, se encaixando e a corrente se esticava, esticava, esticava. Cruzava cidades, invadia estradas, atravessava as fronteiras. A ordem era buscar um espaço vazio e fechá-lo.
Se os elos rareavam, logo apareciam novas “peças”. Vinham de carro ou trazidas por motoristas de ônibus, que as levavam até onde precisassem.
Não havia certeza alguma de que o planeta testemunharia o feito. Aquele ainda era um mundo fechado.
Eu não conheci os detalhes dessa história até que a ouvisse diretamente dos amigos que ganhei ao viajar pelos países bálticos muitos anos depois, já adulta.
A corrente reuniu 3 povos de idiomas e origens diferentes.
Nem se sabe se todos ali pensavam igual.
Porque pessoas são únicas e divergem em muitas coisas. Tudo o que maioria delas inicialmente podia fazer era ficar em casa ouvindo o rádio, acompanhando o movimento de longe. Até que, tomadas por uma convicção inabalável de que ali havia uma causa em comum, muitas foram se levantando pouco a pouco ao longo do dia e se juntando à corrente. Há relatos de que em algumas cidades as pessoas simplesmente se dirigiam à estação central de ônibus e achavam um jeito de tomar um transporte público que as colocasse o mais perto possível de um ponto qualquer da corrente.
Cada um de alguma forma, ia até um ponto da corrente, encontrava seu lugar e dava as mãos. A corrente aumentava.
Conta-se que, inicialmente, todos cantaram em voz baixa, até que ganharam força para proclamar um refrão que era mais ou menos assim: “Irmão, irmã, juntos ficamos de mãos dadas pela liberdade! Os países bálticos estão despertando”.
Nota de atualização: este relato foi publicado originalmente na revista Top View e neste site. Em julho de 2026, foi revisto para integrar a seção Lituânia do Viagens Transformadoras, com uma breve contextualização sobre a antiga base subterrânea de mísseis soviéticos hoje transformada em museu.
A primeira, das muitas vezes, que visitei esta antiga base, a Lituânia ainda não fazia parte da União Europeia. O lugar tinha uma estrutura de visitação bastante rudimentar, quase improvisada. Talvez por isso a sensação tenha ficado tão viva: como se uma parte do passado tivesse sido deixada ali às pressas, embaixo da terra, depois da retirada soviética e da independência do país. Anos depois, o espaço se tornou mais organizado para receber visitantes. Mesmo assim, continua carregando a força inquietante de um lugar onde a história não parece totalmente encerrada.
Se alguém me dissesse que eu estava no meio do cenário de um filme de magos e fadas, eu acreditaria. O interior da Lituânia é isso mesmo: um tapete verde, uma paisagem misteriosa pontilhada por vilarejos, lagos e florestas de coníferas.
O silêncio dessas terras sempre pareceu intacto. Nem mesmo certos movimentos sinistros que aconteceram neste subterrâneo por décadas conseguiram quebrá-lo por completo.
Vista aérea do Parque Nacional Žemaitijos na Lituânia: quem imaginaria que aí embaixo morava um perigo?
Nota de origem e atualização: este texto relata uma viagem realizada em outro contexto geopolítico. Desde então, o acesso entre a Lituânia e Kaliningrado mudou — a rota descrita aqui pode estar restrita ou fechada. Antes de qualquer deslocamento na região, consulte fontes oficiais atualizadas.
No norte da Europa, uma passarela de areia sobre o mar leva a um território que poucos conhecem — e onde história, memória, autoconhecimento e gemas preciosas aguardavam quem fazia a travessia.
Foto de Nikolai-Tisuguliev
O pneu derrapou seco, levantando poeira do chão de areia batida, antes de parar definitivamente. Eu vinha logo atrás dela, também de bicicleta, e precisei frear de repente para não atropelar a Jurga, minha amiga lituana.
— Adiante é Kaliningrado. Mas eu não posso te levar até lá. Se quiser ir, vai ter que fazer a travessia sozinha.
Havia algo de desdém e ressentimento nas palavras dela. Estávamos no último vilarejo da Curlândia antes dos portões da fronteira fecharem nosso caminho.
Essa história aconteceu antes da guerra entre Rússia e Ucrânia, em outro contexto geopolítico.
No norte da Europa, a Curlândia é um longo braço de areia e pinheiros que sai do continente, avança 100 quilômetros feito passarela sobre as águas frias do Mar Báltico e conecta dois territórios. Numa ponta fica a Lituânia. Na outra, Kaliningrado — que não é exatamente um país, mas um pedaço da Rússia fora da Rússia, espremido entre países europeus e o mar.
Istmo da Curlândia-Lituânia-Kalingrado: um grande faixa de areia entre dois territórios que já não se falam.
Minha amiga não podia entrar lá sem permissão. Desde o fim da União Soviética, a relação entre Lituânia e Rússia nunca foi simples. Antes se fundiam no mesmo mapa. Depois passaram a existir separadas, com histórias, feridas e fronteiras próprias.
Em todo caso, Jurga não fazia a menor questão de atravessar.
Eu, que até então nunca tinha ouvido lhufas sobre Kaliningrado, fiquei intrigada com a chance de pegar um atalho para um lugar que parecia viver num canto dobrado do mapa. Digo atalho porque havia outra forma de chegar até lá: dando a volta pelo continente.
O atalho e as dunas
Acontece que cortar caminho costuma ter seu preço. Foi o que sempre aprendi por aí.
Trajetos secundários podem ser mais curtos, mas nem sempre são os mais tranquilos. É só olhar para trás: mais de mil anos antes de mim, cavaleiros e mercadores já tinham se dado mal tentando cortar caminho pela Curlândia. Nesse lugar, onde o vento bate forte, as dunas se moviam de tal maneira que atordoavam os aventureiros de outrora. Inclusive, uma antiga aldeia engolida pela areia jaz ali, bem embaixo de uma delas.
Hoje, os pinheiros plantados na região até domam as dunas e bloqueiam parte das rajadas, mas um pouco do sopro forte ainda retorce troncos e galhos nas florestas dançantes — e desequilibra a bicicleta.
Se eu fosse pegar o atalho, que fosse de ônibus.
Foi o que fiz dias depois.
A travessia
Pela janela fui perdendo de vista as casinhas coloridas enquanto nosso ônibus seguia rumo a Kaliningrado pela Curlândia. A Curlândia lituana é pontilhada por esses vilarejos fofos, balneários bem populares nos finais de semana e no verão. Hoje, essa passarela de areia, terra e pinheiros é aberta aos visitantes, mas na era soviética só usufruía daqui quem fosse amigo do regime vigente — o que não era o caso da família da minha amiga. Como o ônibus seguiria até Kaliningrado, Jurga preferiu não me acompanhar dessa vez.
Casas coloridas na Curlândia(Imagem: Juliana Reis)
Fronteira e terra de ninguém
No portão da fronteira, guardas fazendo carão checaram o passaporte de cada passageiro e deliberaram por mais de uma hora.
Isso de ficar parada em terra de ninguém me causa aperto, medo, saudade da mãe e vontade de estar protegida no almoço de domingo da família.
Finalmente liberado, nosso motorista acelerou em solo estrangeiro. Ainda era Curlândia, só que agora russa. A mata ficou mais fechada, salpicada de placas demarcando área militar.
Kaliningrado abriga forças russas importantes, incluindo a Frota Báltica. E talvez por isso, mesmo antes das tensões recentes ganharem os noticiários, já havia algo no ar que fazia a gente lembrar, sem muito esforço, que fronteira nunca é só uma linha no mapa.
Nome russo, referências germânicas
Apesar do nome homenagear um cidadão russo — o camarada bolchevique Mikhail Kalinin, da turma que fundou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, e foi amigão de Stalin — Kaliningrado transborda mesmo é em referências germânicas. Não falo só da cerveja, que ao chegar me pareceu muito mais popular do que a vodca, nem dos cantos com jeito de cidade medieval alemã.
Cavalaria, história e filosofia
A novela toda é que, antes de ser anexada pela União Soviética ao fim da Segunda Guerra Mundial, isso aqui foi parte de um território alemão. E assim foi por séculos.
Foi quando comecei a entender.
Kaliningrado não era só um pedaço de terra qualquer que ficou nas mãos da Rússia, ensanduichado entre a Polônia, a Lituânia e o mar depois do fim da URSS, em 1991. Kaliningrado era a mítica Königsberg, antigo refúgio de uma importante ordem de cavaleiros medievais: os Teutônicos.
Mapa de Kaliningrado(imagem: reprodução)
Aliás, é também a tal Königsberg onde nasceu um dos filósofos mais famosos do mundo, Immanuel Kant — bem depois dos cavaleiros, claro, em 1724.
Kant foi um dos grandes pensadores do Iluminismo, movimento que renovou ideias de liberdade na Europa entre os séculos 17 e 18. Entre as muitas reflexões propostas por ele, uma das que melhor compreendo é a de que, quando agimos sem ser movidos por medo ou por desejo — sem calcular o que vamos ganhar ou perder — nos libertamos um pouco dos condicionantes do mundo e nos aproximamos da autonomia.
Catedral onde está o túmulo de Kant (Imagem: Juliana Reis)
O filósofo batiza a Universidade Federal dos Bálticos Immanuel Kant, uma das muitas instituições de ensino superior da região que, durante anos, recebeu estudantes de vários países, atraídos por valores mais acessíveis e pela possibilidade curiosa de estar “dentro da Europa”, ainda que numa ilha russa.
Pompa e opressão arquitetônica
Königsberg está entranhada em Kaliningrado. Às vezes aparece em ruínas de antigas pontes, de castelos e de fachadas medievais. Às vezes desaparece sob o peso seco e abrutalhado da arquitetura soviética que veio depois.
Quando estive lá, o maior representante dessa mistureba imobiliária era a Casa dos Sovietes, edifício construído na área ligada ao antigo Castelo de Königsberg para abrigar escritórios do governo. Nunca foi ocupado. Em 1985 acabaram-se os fundos para continuar a obra. Em 1991, o que acabou de vez foi a União Soviética.
De modo que aquela caixa de concreto de mais de vinte andares, com janelas estreitas e cara de robô abandonado, ficou lá, sobrando.
Lembrança de uma era.
Edifício Casa dos Soviets(Foto: reprodução VisualHunt)
A pedra do tempo
Mas existe algo que chegou ao território muito antes dos soviéticos, dos alemães, de Kant ou dos teutônicos — e ainda é visível: âmbar.
O líquido viscoso que escorreu dos pinheiros do norte da Europa para o mar há cerca de 30 milhões de anos veio arrastando junto pedras, insetos, areia, conchas… e parou nas águas calmas e frias do Mar Báltico, bem na altura de Kaliningrado.
Pedaços de âmbar do Mar Báltico no Museu de Yantarni em Kaliningrado (Foto de Juliana Reis)
Por guardar o tempo dentro dela, os pedaços da resina transparente, endurecida, da cor do mel e do sol, são valiosos. E a maior concentração dessa preciosidade no planeta está justamente ali, na região de Kaliningrado, onde o âmbar é colhido industrialmente — ou na brincadeira, por quem se anima a procurar os pedaços que o mar revolto joga nas praias depois das ressacas e tempestades.
Para mim, pareceu um tantinho metafórico que o símbolo de Kaliningrado seja uma gema preciosa (cujo valor nem todo mundo conhece) que guarda história dentro dela.
A volta
Depois de quase uma semana em Kaliningrado, tomei o ônibus de volta.
No caminho, pensei no quanto a estrada sempre me fornece uma energia de renovação de vida. Mesmo quando vai na direção do desconhecido. Mesmo quando oferece um atalho — escolha que ainda me mete medo — para um lugar intrigante que, até então, mal aparecia nos mapas que conheci.
Eu continuo acreditando na importância de buscar um saber que nasce fora da sala de aula.
Existem histórias para serem conhecidas e contadas em todos os lugares. Elas podem brotar de encontros simples, de ligações improváveis, de caminhos secundários. Como você vai encontrá-las, se vai encontrá-las, se vai gostar ou não, se elas vão te transformar ou cair no esquecimento… tudo depende do seu olhar e da sua sensibilidade para perceber os estímulos do mundo.
Podem estar guardadas num território que você nunca soube que existia. Ou num olhar mais atento sobre uma cidade que você já conhece.
Podem estar esperando há anos para serem descobertas, como aqueles milhares de anos guardados num pedaço de âmbar.
O carimbo
Nosso ônibus se aproxima novamente da demarcação da fronteira e para. Um guarda embarca e caminha pelo corredor pedindo os passaportes. Estico o braço e entrego o meu.
Ele me reconhece, desfaz a carranca e sorri enquanto pressiona o pesado carimbo de metal sobre uma página livre do documento.
Clac.
O selo estampado onde se lê Калининградская область vai se juntar a tantos outros numa gaveta lá de casa quando esse passaporte perder a validade.
São meus atestados de coragem. Troféus que guardo para lembrar que, apesar do medo das travessias, toda vez que as faço, volto melhor do que quando fui.
O guarda desce, a porta bate, o ônibus arranca lentamente. Arrisco um aceno aos companheiros fardados do lado de fora. Eles me devolvem o gesto com sorrisos e um leve aceno de cabeça.
Por que não fizeram assim na primeira vez que passei por aqui?
Eu teria me sentido tão melhor.
O ônibus ganha velocidade. Os pinheiros agora correm pela janela. Uma casa colorida passa também. Depois outra, mais outra. Vejo um retalho do mar, um pescador, um grupinho colhendo cogumelos na floresta, as dunas gigantes.
Abro a janela.
Sinto o vento da Curlândia no rosto.
Estou de volta à Lituânia. Meus ombros relaxam. É meu corpo entendendo o sentimento que essa volta me traz antes mesmo que eu possa formulá-lo racionalmente: voltei para o lugar onde o mundo me parece menos ameaçador.
*Texto publicado originalmente no site da revista Vida Simples.
Depois da queda da URSS, um grupo de artistas criou uma república de brincadeira — e levou muito a sério direito de cada um ser quem é.
Se abríssemos o mapa de um país sobre a mesa como quem abre um jogo de tabuleiro, a Constituição seria o livrinho de regras da brincadeira. Ali estariam os limites, os direitos, as promessas de justiça e aquela tentativa — quase sempre imperfeita — de garantir que todo mundo tenha algum espaço para existir.
Na vida real, nem sempre uma Constituição contempla ou agrada a todos. Há pensamentos que divergem, interesses que se chocam, feridas que não cabem em artigo nenhum. Talvez por isso seja tão curioso que, no fim do século 20, mais precisamente em 1º de abril de 1997, uma pequena comunidade de artistas e intelectuais tenha criado sua própria nação, proclamado independência e escrito uma Constituição feita de valores aparentemente simples, mas capazes de tocar pontos fundos da existência humana.
Não sei se o Dia da Mentira foi escolhido de propósito. Mas a autoproclamada República de Užupis nasceu assim mesmo: dentro de Vilnius, capital da Lituânia, uma ex-república soviética às margens do Mar Báltico.
Depois de décadas sob o jugo da URSS, gente que havia aprendido a esconder pensamento, criação e desejo de liberdade escolheu um bairro separado do centro de Vilnius por um rio e deu início ali a uma espécie de recomeço. A área não tinha lá a melhor das vibrações. Além de habitada por um ou outro membro da KGB, a polícia secreta da União Soviética, era cheia de casas abandonadas e semidestruídas, ocupadas por gente que não tinha para onde ir — ou que havia perdido o rumo num mundo onde o respeito às liberdades individuais, fazia tempo, tinha deixado de ser um valor.
O que uma república inventada precisa ter
E como toda república tem seu grupo de governantes, Užupis elegeu os seus: presidente, ministros, embaixadores… todos gente criativa envolvida com a reconstrução do bairro e criação de galerias, ateliês, cafés, arte de rua, lojas e festividades.
E como toda nação tem seus monumentos, eles ocuparam pilares vazios — de onde Lênins e Stalins haviam sido desalojados — com suas próprias esculturas. A principal delas é um anjo soprando uma trombeta, como quem anuncia o renascimento e a liberdade artística.
E como toda república independente deve ter uma bandeira, Užupis tem a sua. Nela, aparece uma mão em posição autoritária, mas com um buraco no meio: sim, você é livre para passar. Ninguém será impedido de fazer seu caminho.
A placa de entrada avisa que o sorriso é bem-vindo e que o limite de velocidade é de 20 km/h. É uma velocidade boa para passear, espreitar, explorar, conhecer pessoas e escolher o próprio rumo.
Finalmente, como toda nação livre precisa de uma Constituição — ou pelo menos de uma boa tentativa de organizar seus sonhos — Užupis criou a sua. Estive lá e li seus 38 artigos, presos ao muro da rua principal. Eles aparecem em placas espelhadas, como se a Constituição não pudesse ser lida sem que o leitor se veja refletido nela. Ao lado, três lemas:
NÃO SE ANULEM
NÃO SE VINGUEM
NÃO SE RENDAM
A Constituição de Užupis
Sem perder o humor, a delicadeza e uma estranha lucidez sobre os grandes anseios da vida…a Constituição de Užupis “assim dispõe”:
1. Homens e Mulheres têm o direito de viver e passar às margens do rio Vilnia, e o rio Vilnia tem o direito de passar.
2. Homens e Mulheres têm direito a água quente, a aquecimento no inverno e a um telhado.
3. Homens e Mulheres têm o direito de morrer, não sendo no entanto uma obrigação.
4. Homens e Mulheres têm o direito de cometer erros.
5. Homens e Mulheres têm o direito de ser únicos.
6. Homens e Mulheres têm o direito de amar.
7. Homens e Mulheres têm o direito de não ser amados, mas não necessariamente.
8. Homens e Mulheres têm o direito de ser medíocres e desconhecidos.
9. Homens e Mulheres têm o direito de caminhar lentamente.
10. Homens e Mulheres têm o direito de amar e cuidar de um gato.
11. Homens e Mulheres têm o direito de cuidar de um cão até que um deles morra.
12. Um cão tem o direito de ser um cão.
13. Um gato não é obrigado a amar o seu dono, mas deve ajudá-lo em tempos de necessidade.
14. Algumas vezes, Homens e Mulheres, têm o direito de não ter consciência de seus deveres.
15. Homens e Mulheres têm o direito de estar em dúvida, mas isso não é uma obrigação.
16. Homens e Mulheres têm o direito de serem felizes.
17. Homens e Mulheres têm o direito de serem infelizes.
18. Homens e Mulheres têm o direito de ficar em silêncio.
19. Homens e Mulheres têm o direito de ter fé.
20. Ninguém tem o direito à violência.
21. Homens e Mulheres têm o direito de apreciar a sua insignificância.
22. Ninguém tem o direito de ter desígnios sobre a eternidade.
23. Homens e Mulheres têm o direito de compreender tudo.
24. Homens e Mulheres têm o direito de não compreender nada.
25. Homens e Mulheres têm o direito de ter qualquer nacionalidade.
26. Homens e Mulheres têm o direito de celebrar ou não celebrar o seu aniversário.
27. Homens e Mulheres devem lembrar-se do seu nome.
28. Homens e Mulheres podem partilhar o que possuem.
29. Ninguém pode partilhar o que não possui.
30. Homens e Mulheres têm o direito de ter irmãos, irmãs e pais.
31. Homens e Mulheres podem ser independentes.
32. Cada um é responsável pela sua liberdade.
33. Homens e Mulheres têm o direito de chorar.
34. Homens e Mulheres têm o direito de ser mal interpretados.
35. Ninguém tem o direito de culpar outra pessoa.
36. Homens e Mulheres têm o direito de ser um indivíduo.
37. Homens e Mulheres têm o direito de não ter direitos.
38. Homens e Mulheres têm o direito de não ter medo.
Em tempo, Užupis significa “do outro lado do rio”.
Nota de origem: este texto foi publicado originalmente na revista Vida Simples. Em julho de 2026, foi republicado no Viagens Transformadoras para integrar a seção Lituânia, reunindo meus relatos, memórias e experiências no país.
Algo de fantástico ocorria a cada vez que eu deixava a cidade e adentrava a ciclovia cortando o país.
Quando minha amiga Jurga me entregou o mapa da Lituânia, eu me propus a progredir aos poucos fazendo uma day-trip de bicicleta todos os dias — sempre voltando ao mesmo ponto no fim da tarde. Mas algo de fantástico acontecia a cada vez que eu deixava o limite urbano de Klaipeda e adentrava a ciclovia que cortava o país. É que certas histórias que vivi naquele caminho não caberiam no tempo e na distância que eu percorria.
A ciclovia, a floresta, eu e a linha de trem atravessando os Bálticos
A Lituânia foi o último pedaço da Europa a se converter ao cristianismo. Dizem que rituais pagãos seguiram acontecendo no país até o século 20. Dizem… Porque às primeiras pedaladas eu já me via empurrada para dentro de um universo à parte, um mundo de coexistência harmoniosa entre a presença humana e os elementos da natureza — algo como um vínculo espiritual entre os dois. Ao longo da via, cruzes e símbolos folclóricos esculpidos em madeira iam aparecendo, revelando uma forte presença mística tanto pagã quanto cristã. E eu seguia pedalando.
Esculturas de madeira que eu encontrava pelo caminho
Nos bosques de pinus acarpetados por líquen, cogumelos eram colhidos por gente silenciosa vinda–sei–lá–de–onde carregando cestinhas. Entre uma curva e outra, o chão da floresta às vezes virava areia. A bicicleta quase escorregava. Surgia, então, uma falésia, uma praia deserta, alguém sozinho colhendo âmbar… E o mar prateado…
No trajeto, era comum passado virar presente .
Uma vez meu pneu topou num pedaço de concreto. Era ele, o gigante MEMEL NORD, que vinha se desenterrando de uma duna entre o bosque e a beira do mar, espalhando areia e galhos num moroso e mórbido movimento.
— Então, ele existia mesmo…Até então, eu achava que era boato.
Memel Nord
Memel Nord é um bunker, um bruto de um abrigo militar subterrâneo, blindado e fortificado, escondido na areia entre a praia e a floresta desde a 2ª Guerra Mundial. Foi descoberto recentemente. Atrás de uma porta de aço, descobri que seus corredores percorriam o tempo guardando um pesado arsenal tanto alemão quanto soviético, uniformes militares, capacetes arruinados por buracos de bala, louças com a marca da S.S. [a organização paramilitar de elite nazista]...
Quando cheguei ao telhado, me sentei sobre a artilharia antiaérea e acompanhei, ali sozinha, ao mais insólito pôr do sol da minha vida. Do topo do bunker, uma estranha sensação de embriaguez e dor de cabeça me dominavam. Tomei um gole vigoroso da água que levava no bornal, deslizei pela laje, montei na bicicleta e pedalei firme, retomando a viagem.
A artilharia no telhado de Memel Nord
Eu vendo o pôr-do-sol no telhado
Pelas colinas dessa senda encantada é que fui conhecendo o que significa a plena presença – o tal do“agora” de que tanto se fala por aí.
Um dia pedalei com mais empenho e acabei entrando na Curlândia — uma faixa de areia que avança 100 km pelo mar báltico dando num território russo chamado Kaliningrado.
Formada há mais de cinco mil anos, a Curlândia confundiu antigos cavaleiros e mercadores que pensavam ter encontrado ali um atalho entre os reinos de outro tempo. É que o sopro forte dos ventos da região fizeram dunas gigantescas apagarem assentamentos humanos. Hoje os grandes montes de areia estão domados por os pinheiros plantados por toda a extensão da Curlândia. Mas não totalmente. Aqui o vento uiva e pode facilmente retorcer o pneu da bicicleta, assim como fez os troncos e galhos das florestas dançantes que beiram a ciclovia.
A ciclovia na Curlândia indo até Kaliningrado (foto de Marija L @marliu)
Aliás, férias aqui na península de Curlândia, até 1990, foi privilégio reservado apenas aos amigos do regime soviético. (O que não foi, diga-se de passagem, o caso da família da Jurga, a amiga que me forneceu o mapa para essa terra excêntrica.)
Nida: vilarejo na península da Curlândia
Certa vez, ainda na península, quase atropelei um grupo de pessoas que atravessava meu caminho carregando flores e tochas acesas. Após pedir desculpas, decidi segui-las discretamente. Foram até umvilarejo às margens de um pântano em brumas e embarcaram em canoas. Lá no meio do pântano, atearam fogo em grandes figuras mitológicas de madeira erguidas sobre a água. Ali, de forasteira, notei que a ordem geral era deixar queimar o que já não servia mais. A tarde caía e aquele era um ritual celebrando a partida do verão e a chegada do outono. Eu estava no vilarejo de Juodkrantė
Bem mais tarde ainda naquele dia — quando retornei ao meu ponto diário de partida — , Jurga e seu marido Martynas me convidaram para jantar o peixe da lagoa que se forma entre o continente e a península Curlândia. Esse peixe é capturado apenas durante o alto inverno, quando sobe até a superfície congelada. É uma iguaria especialmente oferecida a amigos verdadeiros ou a quem enfrente uma jornada e volta transformado. Como aconteceu comigo na encantada ciclovia Eurovelo 10.
Ilustração de Lu Otto sobre eu e a ciclovia mágica na Europa Báltica
IMPORTANTE
ONDE ME HOSPEDEI
Jurga e Martyna são donos do albergue (hostel) e do apartamento red brick apartments, na cidade de Klaipeda. São meus velhos amigos. Recomendo a passagem por lá e os passeios com eles pelo país.
ONDE FICA ESSA TAL CICLOVIA
A “senda mágica” que percorri diariamente, sempre voltando a Klaipeda, existe e faz parte da ciclovia internacional Eurovelo 10.
Nota de atualização: este relato foi publicado originalmente na revista Vida Simples e neste site em 29 de outubro de 2021. Em julho de 2026, foi atualizado para integrar a seção Lituânia do Viagens Transformadoras.
Na velha estação de trem de Varsóvia havia duas categorias de plataforma: as renovadas, com placas coloridas e instruções em inglês; e as antigas, onde as direções apareciam em polonês com letras apertadas em painéis preto e branco. As da primeira categoria estavam reservadas aos trens que iam para o Oeste, rumo a cidades como Berlim — onde, já no desembarque, o viajante ocidental sentiria-se seguro como em casa. De acordo com a minha passagem, eu deveria me apresentar nas da segunda categoria.
Comparei as instruções em polonês e ucraniano, no verso do bilhete, com as placas na estação. E saí fazendo meu caminho pelo movimento nervoso das escadas e corredores subterrâneos da Warszawa Centralna.
Mais um lance de degraus acima e… pronto! Meu ponto ficava numa longa plataforma cinzenta, de concreto, tomada por uma multidão zangada que se acotovelava carregando malas e sacolas de náilon, dessas de feira, cheias até quase transbordar.
Viagem de trem
Na plataforma, todos lutavam por um lugarzinho esbravejando, reclamando, conversando num idioma com o qual eu não tinha a mínima afinidade. Aquela era a área reservada aos trens de grande distância que partiam para o Leste e percorriam rotas ainda pouco estruturadas para o turismo. Eu era a única pessoa ali sem poder de comunicação, e viajando até a Ucrânia por lazer e curiosidade.
Acanhada, atrapalhando o movimento e tomando empurrões, fiz as contas: dois ou três fossos nos separavam lá daquelas plataformas novinhas, tão organizadas, tão modernamente europeias, ponto de partida para as seguras e descomplicadas Berlim, Viena, Paris… Minha sensação de pertencimento estava no Oeste, e mesmo assim eu escolhia o obscuro lado contrário, aquele para onde aventureiros normalmente não optavam por ir sozinhos.
A recusa em seguir
Sempre fui movida a medo — e ainda não descobri se isso é bom ou ruim. Quando reconheço o medo, curiosamente, eu não corro na direção oposta, mas ao encontro dele. E luto até que um de nós saia vitorioso e a inquietação acabe.
Às vezes eu ganho, muitas vezes quem ganha é o medo.
Daquela vez, escolhi fugir dele sem nem lutar.
Dei as costas para a plataforma e voltei todo o caminho, abrindo espaço entre estranhos e percorrendo novamente o corredores subterrâneos, escadas e saguão, até sair aflita pela pesada porta principal da Estação Central de Varsóvia. Ao erguer o rosto para puxar fôlego e ar puro, bati os olhos no maior arranha-céu da Polônia.
O Palácio da Cultura e da Ciência de Varsóvia (Pałacu Kultury i Nauki – PKiN), construído quando o país vivia sob a influência da União Soviética, inspira tanto deslumbre quanto ressentimento. A Polônia o recebeu como um “presente” da URSS, assim como outros países do bloco comunista também receberiam seus arranha-céus stalinistas. Hoje, uma brincadeira popular entre os moradores de Varsóvia insinua que o mirante do PKiN tem a “melhor vista da cidade porque é o único lugar onde o edifício não pode ser visto.” A fascinação por histórias como essa era o que me impulsionava a viajar – especialmente pelo Leste, a despeito de todas as dificuldades que uma jornada pela região, naquela época, poderia envolver.
O conselho do pai
De um telefone público entre o Palácio e a estação, liguei para casa, no Brasil, e comuniquei a meu pai que desistiria de tudo. Estava com medo de viajar sozinha. E ele me apoiou! “Deixa pra lá então, e volta pra casa que assim é mais fácil”, disse.
— Acha que eu sou boba, pai? – bati o gancho do telefone e entrei de volta na estação.
Deu tempo de ouvir o apito soando enquanto eu subia novamente as escadas de acesso à plataforma do trem Varsóvia-Kiev. Tapei os ouvidos e assisti ao gigante de ferro avançando lenta e vigorosamente pelo fosso. Rangia feito coisa velha que era.
Engoli seco. O estômago embrulhou.
Agora, um zumbido tocava dentro da minha cabeça e meu corpo tremia. Era mesmo um trem da era soviética indo para a capital da Ucrânia. Por que mesmo eu queria insistir num país pouco habituado a turistas e que só falava línguas que eu não dominava?
A multidão me engoliu.
Todos tentavam entrar no trem ao mesmo tempo e, uma vez lá dentro, reivindicavam qualquer lugar onde sentassem. Não havia ordem. Os passageiros se empurravam, gritavam e atiravam as sacolas nas prateleiras. Um homem de quepe e apito berrava comigo em russo – ou seria ucraniano? – apontando impaciente para minha passagem e bolsa.
Eu não conseguia pensar direito. Tinha a mente turva. Não entendia os gritos, os gestos e nem os números impressos no bilhete e nas poltronas. Se houvesse um lugar para mim ali, já estaria tomado.
Então veio o som das portas dos vagões se fechando. Blam!
Uma a uma. Blam!
Logo seria a vez da porta do meu vagão e aí o trem partiria comigo lá dentro.
“Não quero!”. Corri para a porta e iniciei a descida pela escadinha de ferro. Aquela história de viajante solitária e corajosa fora apenas uma mentira que contei por muito tempo – e terminava agora.
A ajuda inesperada
Nunca cheguei a pisar no chão da plataforma. Em vez disso, uma força me sugou de volta para dentro do trem.
A porta se fechou. Blam! Ouvi o ferrolho. O trem iniciou seu deslize.
Arrastada em marcha à ré vagão adentro, entregue ao destino e sem chance de reação, fui socada numa grande cabine vazia com dois sofás-cama. Olha, até que nada mal…
Pude então ver o rosto da mulher de cabelos pretos longos, minha algoz. Ela me soltou e correu para fora da cabine. Bateu a porta e me trancou lá dentro!
Do lado de fora, meteu-se numa conversa apoquentada com o funcionário do trem. Deu um último grito (acho que foi mais para um tipo de ordem) e entrou na cabine. Ajeitou-se com pressa e ansiedade, tomou fôlego e se apresentou.
“Sou Valentina. Você está segura agora”.
Proteção mágica e desconhecida
O doce inglês com sotaque estrangeiro de Valentina me acalmou naquele mesmo instante e pelas próximas 20 horas de viagem até Kiev. Sentávamos uma de frente para a outra, cada uma num sofá.
Durante o trajeto, Valentina dividiu comigo melancia, pão doce, iogurte e linguiça tirados de um farnel que parecia não ter fundo. Emprestou xale e travesseiro quando me deitei vencida pelo cansaço. Fez a tradutora quando passaram o bilheteiro, os guardas de fronteira e a moça do chá, que nos abastecia de bebida quente em copos de vidro com elegantes suportes de metal trabalhado. Notava-se que os suportes eram antigos. — Soviet times! –, disseram Valentina e a moça do chá juntas quando percebi que a base de um deles ainda levava a marca de uma foice e um martelo.
Conversamos sobre família – ela me mostrou algumas fotos – e coragem de sair pelo mundo fazendo escolhas solitárias que dão medo. Ela me ensinou a como agir na Ucrânia e a como encarar as primeiras dificuldades de comunicação e cultura quando pisasse em Kiev.
De onde vinha essa ajuda?
Valentina foi uma ucraniana que notou minha aflição de longe, desde a chegada na estação. Compadecida, me ofereceu um lugar em sua cabine exclusiva e convenceu o guarda do trem de que esse era o melhor jeito de se tratar uma estrangeira assustada, perdida e com a poltrona tomada.
Nos despedimos para sempre pela janela de um táxi. Valentina deu três tapas no teto do carro, liberando o motorista para me levar em segurança ao conjunto de apartamentos-colméia onde estudantes estrangeiros – especialmente chineses – se hospedavam na cidade. Não trocamos contato.
Por um mês, consegui explorar a Ucrânia sozinha.
Como eu já disse, é encarando o medo que termino por vencê-lo e me torno a mais… valente!
Algo me diz que dessa vez, o sucesso da missão teve a misteriosa mão de uma amiga.
Uma vez que você começa o movimento, não há lugar para a preguiça.
É preciso fazer deslocamentos. E eles podem ser cansativos tanto para o corpo quanto para a mente.
Você sobe e desce de trens, ônibus, aviões… Se acomoda em um lugar, mas então logo precisa partir. Repete o processo de procurar hospedagem, compreender o trajeto, ler cardápios esquisitos, comunicar-se em outra língua, enfim reaprender como a banda toca a cada próximo destino…
Cansa lidar com imprevistos e com a bagagem a carregar.
Perder-se é divertido, mas também cansativo quando se está só – pois é preciso manter o estado de alerta constante.
Eu relutei em contar, mas lá vai: no meio de uma praça em Istambul tem um obelisco de – simplesmente! – 3500 anos e que um dia foi trazido do templo de Karnak, no Egito, para a Turquia na maior cara de pau! Esse obelisco viu corridas de bigas, execuções públicas, lutas de gladiadores, eventos com imperadores…Viu as tretas do Império Bizantino por uns 1000 anos e os pipocos do Império Otomano por uns 400.
Mas num dia de chuva em Istambul, eu passei reto por ele correndo com fome na direção de um McDonald´s. Como se aquele obelisco milenar fosse um poste da Copel! (Copel é a Companhia Paranaense de Luz, e eu sou filha de um engenheiro que ajudou a construir essa empresa)
Vergonha, né?
É que eu não aguentava mais!!! Istambul é tão valiosa em informações que acabei exausta mental e fisicamente. Só queria comer num lugar onde não fosse preciso usar o cérebro para escolher algo do cardápio.
Pronto, falei! E a imagem aqui é antiga porque no esgotamento eu não fiz a minha própria foto.
Quando Adolf Hitler chegou ao poder em 1933, ele quis construir uma grande porta de entrada para o território do Terceiro Reich. Então, ele mirou Tempelhof, considerado na época o maior aeroporto da Europa. E ali, naquele terreno pediu ao arquiteto nazista Ernst Sagebiel que operasse uma transformação.
Sagebiel obedeceu e construiu um colosso.
O campo de Tempelhof havia pertencido à Ordem dos Cavaleiros Templários na Idade Média (daí o nome) e sido o berço da famosa companhia de aviação alemã Lufthansa.
O gigantesco terminal semicircular de Tempelhof foi inaugurado em 1939, remetendo às asas da reverenciada águia-símbolo da Alemanha nazista. Era um aeroporto descomunal, que combinava com a megalomania de Hitler e acolhia os aviões em área coberta.
Mas Tempelhof tinha ainda mais espaço. Então a Gestapo (a polícia secreta do estado nazista) achou conveniente instalar ali uma prisão. Na Columbia-Haus jornalistas, políticos, judeus e outros “inimigos” do regime nazista seriam encarcerados — enquanto voos comerciais iam e vinham, sem problemas nem interrupções.
Não é difícil encontrar registros de Adolf Hitler discursando diante de milhares de pessoas sob bandeiras nazistas. Pois alguns desses massivos eventos foram realizados na ampla áreaTempelhof.
Detalhe no aeroporto Tempelhof. Foto de Martin Lostak_unsplash
De infame aeroporto nazi a ponte de salvação
O que ninguém imaginava era que, com o fim da Segunda Guerra Mundial e com o desmoronamento dos planos do Terceiro Reich, esse controverso local pudesse salvar a vida dos berlinenses. Mas foi o que aconteceu.
Com a rendição nazista em 1945, a derrotada Alemanha foi dividida. Franceses, britânicos e americanos ocuparam a metade ocidental do país, enquanto os soviéticos ocuparam a metade oriental. Berlim foi um caso único: foi repartida por dentro, com cada país cuidando de um setor na cidade. Mas como estava na metade oriental da Alemanha, terminou completamente cercada pelos soviéticos. Berlim, então, se tornou uma ilha capitalista dentro de um território comunista.
Ninguém entra em Berlim Ocidental por terra
Três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, as forças soviéticas bloquearam os acessos à Berlim controlada pelos ocidentais. E isso impediu o fornecimento de alimentos, medicamentos e tudo o mais que era importante para vida de dois milhões de pessoas que moravam lá dentro.
Estava interrompido o fornecimento apenas via terrestre, diga-se. Afinal, se o aeroporto de Tempelhof estava em Berlim Ocidental, o acesso pelo ar ainda existia.
E foi assim que, diariamente, duas toneladas de mantimentos passaram a chegar pelo ar – mesmo com pilotos tendo que sobrevoar o inimigo – mantendo vivos os moradores da Berlim cercada.
A tensa ponte aérea durou 15 meses e tornou-se uma das mais célebres proezas da história da aviação mundial.
Depois de milhares voos, o bloqueio terminou em maio de 1949
Pista de bike no século 21
Voos civis seguiram descendo no Tempelhof ligando Berlim ao mundo ocidental pelos anos seguintes, durante a Guerra Fria. Em 1989, veio a unificação alemã com a queda do Muro de Berlim, que separava os dois lados da cidade, mas o aeroporto continuou funcionando. Até que os voos maiores foram gradualmente sendo desviados a outros aeroportos mais modernos da cidade.
O lugar que salvou Berlim do isolamento ainda chegou a ser pouso de companhias aéreas low cost até há pouco tempo. Então, um dia, deixou de existir como aeroporto.
Em 30 de outubro de 2008, o último voo regular decolou de Tempelhof às 22h. À meia-noite as luzes do pátio e das pistas de Tempelhof foram desligadas para sempre.
Morria o emblemático aeroporto que salvou da fome Berlim Ocidental. Nascia em 2010, no mesmo lugar, uma das maiores e mais queridas áreas de lazer da cidade.
Moradores do bairro vizinho de Schillerkiez têm em Tempelhof uma horta comunitária e berlinenses em geral fazem piqueniques e churrascos, pedalam, deslizam pelas pistas com skates e pranchas de windsurf com rodas, soltam pipas e jogam bola.
Eu, de bike, flanando pela pista de pouso do aeroporto Tempelhof. Foto de Rafael Carvalho do blog Esse Mundo é Nosso.
Como chegar
Cheguei lá de bicicleta seguindo o mapa da cidade.
Mas dá para ir de metrô. É só parar em uma dessas estações: Tempelhof, Paradestr ou Platz der Luftbrücke.
*foto de abertura: Lars-schneider_uns
Eles estão nos semáforos em quase todos os cruzamentos de pedestres em Berlim.
Andando em verde, paradinhos em vermelho, os Ampelmännchen são as luzinhas em formato de homenzinhos de chapéu que – quando acesas – dão a autorização pra você cruzar a rua ou não.
A verdade é que essas figuras fofas – conhecidas como Ampelmännchen – não se tratam de um capricho, mas de um plano bem pensado.
A história dos Ampelmännchen está intimamente ligada à divisão e à reunificação de Berlim.
Rebobina!
Em novembro de 1989 derrubava-se o Muro de Berlim. A imensa barreira de concreto ilhou a capitalistaBerlim Ocidental no meio da Alemanha comunista (a RDA) por décadas. Sim, Berlim ficava dentro da República Democrática Alemã, o lado da Alemanha que seguia o regime comunista. E o Muro era o símbolo mais evidente e literal do que era a divisão do mundo naquela época em dois blocos: o comunista e o capitalista.
A queda daquela cortina de concreto representava um passo gigante para o fim da Guerra Fria e para reunificação de Berlim e das duas Alemanhas.
E os bonecos de trânsito que vemos hoje na Berlim unificada, ainda, têm participação especial nessa história.
O mobiliário urbano na Alemanha Oriental
Tudo começou 1961, quando o psicólogo Karl Peglau apresentou sugestões para novos símbolos de semáforo em Berlim Oriental. Sua invenção eram luzes de pedestres na forma de homenzinhos de chapéu, com nariz e até barriguinha proeminente. Nascia o Ampelmann. Ou os Ampelmännchen.
Como psicólogo, inventor engenhoso e estrategista inteligente, Karl sabia do efeito emocional que essas figuras provocariam.
É que estamos mais propensos a confiar em alguém que se parece conosco ou em quem gostamos.
Ou seja, carismáticas figuras realmente parecidas com a gente nos fariam prestar mais atenção nos sinais de trânsito. Muito melhor do que fariam os tradicionais e impessoais homenzinhos palito.
Então… a fofura dos Ampelmännchen não era capricho? Não. Era um plano bem pensado!
As sisudas autoridades da Alemanha Oriental gostaram da ideia e implantaram os sinais com o desenho de Karl.
Houve murmúrios de que o chapéu do Ampelmann fosse um agradinho às autoridades do regime comunista, uma vez que o acessório era bastante usado pelos representantes da Alemanha Oriental.
Será?
Ícones nostálgicos da Guerra Fria
Anos mais tarde, quando o Muro de Berlim já era só escombros, nasceu uma mentalidade coletiva de se livrar de um certo espírito retrógrado que acompanhava os símbolos do regime comunista.
Assim, veio a eliminação progressiva de várias referências à Alemanha Oriental. Mas já era tarde para eliminar os Ampelmännchen, que haviam cativado todos os lados do país. As pessoas agora gostavam dos homenzinhos do semáforo. E os Ampelmännchen tornaram-se figuras cultuadas.
As autoridades se renderam àquela figuras e viram nelas mais razões para perpetuá-las e apresentá-las ao Ocidente do que para destrui-las.
Teve até estudo acadêmico: uma pesquisa feita na Universidade Jacobs em Bremen (Alemanha) compara a eficácia visual dos sinais do Oriente e do Ocidente e registra que os Ampelmännchen não ocupam apenas seu lugar como um ícone nostálgico da Guerra Fria – ele realmente tem vantagem visual sobre os manjados sinais utilizados na Alemanha Ocidental.
Com a Alemanha reunificada e a eficácia dos Ampelmännchen comprovada, pareceu boa ideia instalá-los por toda a nova Berlim em vez da apagá-los.
Mais do que uma ação para a segurança no trânsito, acender os semáforos de toda Berlim com esses homenzinhos de luz foi um grande e inusitado passo para unir o que Guerra Fria havia separado.
Berlim Oriental: AmpelmannBerlin on Visualhunt.com / CC BY
Em abril de 1917, Lênin desembarcou de um trem na Estação Finlândia, em Petrogrado (hoje, São Petersburgo), na Rússia. Após um longo exílio, ele vinha liderar uma das mais dramáticas revoluções da história mundial.
Eu também cheguei na Rússia nessa mesma Estação Finlândia. Só que quase 100 anos depois, como uma viajante independente e sem pretensões – porém tendo cometido um erro básico que me deixara sem dinheiro e na condição de, digamos, analfabeta. Sem amigos à espera e sem um só rublo no bolso para negociar, eu também estava condições de me comunicar. Havia me esquecido que, ao atravessar a fronteira finlandesa e chegar na Rússia, o alfabeto era o cirílico – um sistema alfabético de escrita sobre o qual eu não tinha o mínimo conhecimento.
Eu estava em apuros.
Eu estava viajando sozinha.
Essa história é sobre como viagens solo (e suas burradas) podem nos fortalecer para os duelos diários, além de ensinar lições muito valiosas sobre nós mesmos
Quando você for viajar sozinho:
LIÇÃO 1. VÃO TENTAR TE CONVENCER A DESISTIR
Os outros farão de tudo para te convencer a não ir adiante. Uma vez que você faz um movimento – e esse movimento é ousado – você mostra que sempre há gente se arriscando a realizar coisas apesar das dificuldades.
E isso incomoda.
É que se juntos não fizermos nada, não precisaremos lidar com nossos possíveis insucessos, não é?
Bom, foi por amor que meu irmão sugeriu que eu voltasse e fizesse ‘um concurso público’ quando um dia comuniquei que iria para a Estônia e não para o aeroporto tomar o voo de volta pra casa.
Também por amor, amigas me enviavam mensagens enquanto eu viajava ressaltando a falta que minha presença fazia. Mas quer saber? Quando voltei, a maioria delas estava ocupada lidando com a própria vida.
Mas eu me cansei mesmo foi de encontrar quem, sem motivo aparente, desencoraja o outro a desbravar fronteiras.
Mas eu me cansei mesmo foi de encontrar quem, sem motivo aparente, desencoraja o outro a desbravar fronteiras.
Certo inverno, numa troca de trens para a Escandinávia, encontrei um brasileiro recém-formado em medicina e orgulhoso dos muitos carimbos em seu passaporte. Ele havia estado na Noruega num tempo escuro e frio! Então, no momento, ele era o meu herói! E dele eu queria todos os conselhos de viajante que pudesse conseguir. Seu assunto principal era ele mesmo e suas façanhas ao norte. E seus conselhos se concentravam nas desgraças que poderiam me abater – ser deportada e sofrer com solidão, frio e escuridão… Era hora dele voltar para o Brasil, mas queria continuar on the road .
Ele me dizia “não vá, vai ser difícil”. Mas, gente… Por quê?
TAMBÉM VI ISSO NUM FILME
No filme Livre , baseado em uma história real, Reese Whiterspoon faz o papel de Cheryl Strayed, uma solitária viajante que busca a cura para um trauma pessoal peregrinando. Ela atravessa a Pacific Crest Trail, trilha de 4265 quilômetros que cruza os Estados Unidos desde o México até o Canadá. Cheryl faz amigos no caminho. Um deles é Greg. Em certo momento, Greg quase planta na mente de Cheryl a dúvida determinante: continuar ou desistir? É incrível como ele faz isso quase sem querer. E sutilmente.
AMIGO DA ONÇA OU INOCENTE?
Os mais observadores percebem: o personagem de Greg anda lidando com os próprios monstros e frustrações durante a aventura. E não é que em determinado ponto vem realmente a notícia de que ele desistiu? Pois Cheryl continuou.
O escritor Steven Pressfield – autor do livro que deu origem ao filme Lendas da Vida (com Matt Damon e Will Smith) – nos fala sobre um inimigo que nos impede de realizar aquilo que mais desejamos.
Esse inimigo é nossa própria Resistência.
Em seu livro A Guerra da Arte , ele disseca a Resistência mostrando diversas de suas faces.
E uma das faces da Resistência é a culpa que colocamos nos outros – enquanto o que nos prejudica é o peso que damos àquilo que os outros dizem.
“Quando vemos os outros começando a viver suas vidas autênticas, ficamos loucos se não estivermos vivendo a nossa própria vida real. Os indivíduos que se sentem realizados em suas próprias vidas quase nunca criticam o próximo. Quando falam, é para oferecer encorajamento.” (Steven Pressfield, em A Guerra da Arte)