Podcast Viagens Transformadoras | Histórias Narradas

O primeiro objeto que perdi longe de casa foi também a última âncora que ainda me ligava ao meu pai. Uma história sobre perda, viagem e amadurecimento em terra estrangeira.

Viajar é uma ótimo forma de encontrar o amor; mas essa busca, na verdade, deveria começar bem antes – e dentro da gente.

Foi num albergue encravado nos Alpes que uma geração de viajantes retornou de seus países por vários invernos reforçando a amizade nascida nas conversas ao lado da lareira e durante refeições preparadas na cozinha coletiva. O tempo dessa turma não era gasto na busca de selfies perfeitas – aliás, essa expressão nem existia e às vezes a gente só virava a câmera e a foto dava certo ou não. No lugar mais bonito do mundo  ninguém enlouquecia para sair bonito na foto ou para provar que estava lá. Definíamos nossos destinos no bate-papo e rabiscando os mapas à luz da fogueira lá fora, respirando o ar gelado da montanha. O wi-fi não estava envolvido.

Quando minha amiga Jurga me entregou o mapa da Lituânia, me propus progredir aos poucos sempre voltando para a minha base no fim do dia. Mas algo acontecia a cada vez que eu deixava o limite urbano de Klaipeda e adentrava a ciclovia. Digo… Certas histórias não caberiam naquele tempo e distância.

As desculpas que damos a nós mesmos para não enfrentar medos ficam mais evidentes quando estamos prestes a viajar. Fantasiam-se de devoção familiar, dor, escassez, abnegação, necessidades diversas.

Foi a largada para minha primeira grande viagem. Vinha de uma hora em pé dentro de um metrô em pane no subterrâneo de Paris. Penava metida num casaco pesado, trazendo a mochila estufada com o desnecessário. Inexperiente, chorei discretamente. Quis desistir. Até que a porta se abriu na última estação nos limites da cidade e ela não deixou. Meu primeiro anjo do caminho surgiu há anos e sumiu sem que eu pudesse agradecer. Sem seu estranho incentivo, eu não conheceria os outros.

Uma vez ouvi que felicidade é a sensação de estar bem com você e as pessoas ao redor, e de estar no lugar certo na hora certa. Foi no aeroporto de Varsóvia que a encontrei – a felicidade. Ali, trafegando entre mundos, me vi realizada e livre do desejo de chegar a algum lugar, apenas sendo eu, sem tentar manipular a vida. Então projetei mentalmente o portal de transição que, para mim, simboliza viajar. E fui transportada a uma dessas paradas de serviço para viajantes na estrada.

Dona Anastacia me ofereceu uma dose de vodka caseira ucraniana. Junto devemos comer um pedaço de pão e tomate para aliviar a acidez no estômago. O pão também é feito em casa e o tomate cresce no quintal. Não quis ser rude e aceitei, mas não sem titubear. Ela preparou a mesa. Sobre a toalha de bordado ucraniano colocou 4 copos e partiu o alimento em fatias. Antes de virar a dose, brindamos eu, ela, o marido Nicolai e Peter, meu tradutor. Dona Anastacia disse simpática: “Não conhecemos a radiação. Não a enxergamos. Saúde!”. E empurrou o tomate na minha boca.

Eu tinha um plano: sair da Ucrânia  antes que meu visto expirasse. Até que um acidente de trem jogou a malha ferroviária do país no caos e todos os funcionários e passageiros ficaram confusos. Ninguém queria dar atenção a uma estrangeira. Fui informada por mímica que não haveria lugar para mim nem no próximo trem, nem, aparentemente, em nenhum outro.  O atraso arriscava minha saída da Ucrânia legalmente. Aí toda a cidade parou para me ajudar.

No meu último verão como adolescente li o navegador Amyr Klink defendendo, em seu livro Mar Sem Fim, que um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar a arrogância que nos faz doutores do que não vimos. Ali tomei a decisão de ser aluna pelo mundo e, viajando, quanto mais eu aprendia, mais eu me dava conta do quanto não sabia das coisas.

Neste episódio do podcast Viagens TranSformadoras, eu, Juliana Reis falo de como tem sido viajar a pé ao lado de mulheres peregrinas extraordinárias levando pouca bagagem e muita sede de distâncias. Nossa história de viajar a pé começou com um “tal” Caminho de Santiago de Compostela – muita gente estava falando dele. Era pra ser só uma andança em outro país, mas virou uma jornada para além de tudo o que sabíamos a respeito do mundo e de nós mesmas.”

Um dia achei boa ideia levar meus pais e companheiro aos lugares onde morei por muitos anos  para que me conhecessem melhor. Por 32 dias os conduzi numa jornada através do meu mundo: pouca bagagem, rumo livre, simplicidade, vida nos levando. No trajeto, descobri que viajar juntos não significa estar na mesma viagem.