⇑ O primeiro objeto que perdi longe de casa foi também a última âncora que ainda me ligava ao meu pai. Uma história sobre perda, viagem e amadurecimento em terra estrangeira.
⇑ Viajar é uma ótimo forma de encontrar o amor; mas essa busca, na verdade, deveria começar bem antes – e dentro da gente.
⇑ Foi num albergue encravado nos Alpes que uma geração de viajantes retornou de seus países por vários invernos reforçando a amizade nascida nas conversas ao lado da lareira e durante refeições preparadas na cozinha coletiva. O tempo dessa turma não era gasto na busca de selfies perfeitas – aliás, essa expressão nem existia e às vezes a gente só virava a câmera e a foto dava certo ou não. No lugar mais bonito do mundo ninguém enlouquecia para sair bonito na foto ou para provar que estava lá. Definíamos nossos destinos no bate-papo e rabiscando os mapas à luz da fogueira lá fora, respirando o ar gelado da montanha. O wi-fi não estava envolvido.
⇑ Quando minha amiga Jurga me entregou o mapa da Lituânia, me propus progredir aos poucos sempre voltando para a minha base no fim do dia. Mas algo acontecia a cada vez que eu deixava o limite urbano de Klaipeda e adentrava a ciclovia. Digo… Certas histórias não caberiam naquele tempo e distância.
⇑ Foi a largada para minha primeira grande viagem. Vinha de uma hora em pé dentro de um metrô em pane no subterrâneo de Paris. Penava metida num casaco pesado, trazendo a mochila estufada com o desnecessário. Inexperiente, chorei discretamente. Quis desistir. Até que a porta se abriu na última estação nos limites da cidade e ela não deixou. Meu primeiro anjo do caminho surgiu há anos e sumiu sem que eu pudesse agradecer. Sem seu estranho incentivo, eu não conheceria os outros.
⇑ Uma vez ouvi que felicidade é a sensação de estar bem com você e as pessoas ao redor, e de estar no lugar certo na hora certa. Foi no aeroporto de Varsóvia que a encontrei – a felicidade. Ali, trafegando entre mundos, me vi realizada e livre do desejo de chegar a algum lugar, apenas sendo eu, sem tentar manipular a vida. Então projetei mentalmente o portal de transição que, para mim, simboliza viajar. E fui transportada a uma dessas paradas de serviço para viajantes na estrada.
⇑ Dona Anastacia me ofereceu uma dose de vodka caseira ucraniana. Junto devemos comer um pedaço de pão e tomate para aliviar a acidez no estômago. O pão também é feito em casa e o tomate cresce no quintal. Não quis ser rude e aceitei, mas não sem titubear. Ela preparou a mesa. Sobre a toalha de bordado ucraniano colocou 4 copos e partiu o alimento em fatias. Antes de virar a dose, brindamos eu, ela, o marido Nicolai e Peter, meu tradutor. Dona Anastacia disse simpática: “Não conhecemos a radiação. Não a enxergamos. Saúde!”. E empurrou o tomate na minha boca.
⇑ Eu tinha um plano: sair da Ucrânia antes que meu visto expirasse. Até que um acidente de trem jogou a malha ferroviária do país no caos e todos os funcionários e passageiros ficaram confusos. Ninguém queria dar atenção a uma estrangeira. Fui informada por mímica que não haveria lugar para mim nem no próximo trem, nem, aparentemente, em nenhum outro. O atraso arriscava minha saída da Ucrânia legalmente. Aí toda a cidade parou para me ajudar.
⇑ No meu último verão como adolescente li o navegador Amyr Klink defendendo, em seu livro Mar Sem Fim, que um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar a arrogância que nos faz doutores do que não vimos. Ali tomei a decisão de ser aluna pelo mundo e, viajando, quanto mais eu aprendia, mais eu me dava conta do quanto não sabia das coisas.
⇑ Neste episódio do podcast Viagens TranSformadoras, eu, Juliana Reis falo de como tem sido viajar a pé ao lado de mulheres peregrinas extraordinárias levando pouca bagagem e muita sede de distâncias. Nossa história de viajar a pé começou com um “tal” Caminho de Santiago de Compostela – muita gente estava falando dele. Era pra ser só uma andança em outro país, mas virou uma jornada para além de tudo o que sabíamos a respeito do mundo e de nós mesmas.”
Um dia achei boa ideia levar meus pais e companheiro aos lugares onde morei por muitos anos para que me conhecessem melhor. Por 32 dias os conduzi numa jornada através do meu mundo: pouca bagagem, rumo livre, simplicidade, vida nos levando. No trajeto, descobri que viajar juntos não significa estar na mesma viagem.
